ERAUMAVEZ
Contadores de histórias






Joana Cavalcanti
" Quem conta uma história cria um instante de partilha segreda os mistérios da alma e faz surgir no céu uma estrela "




Contar histórias: prática pouco comum
Por Marcus Tavares
Personagem de Monteiro Lobato, Dona Benta, para muitas gerações, foi e ainda é o ícone da avó carinhosa que instiga as crianças com suas fábulas. No Sítio do Pica-Pau Amarelo, longe de todas as tecnologias e atrações do mundo moderno, as histórias transportavam Pedrinho, Narizinho e a turma da Emília para aventuras mirabolantes.
As narrativas ganhavam vida própria. E a imaginação era apenas o primeiro passo. Há muito tempo, o dia-a-dia bucólico do Sítio não encontra mais eco nas grandes cidades. O dia é curto para tantos compromissos, afazeres e responsabilidades. O que dirá para o espaço dedicado às histórias?
Não há estatísticas, mas escritores, professores e pesquisadores afirmam que contar histórias tornou-se uma prática pouco comum no cotidiano das famílias.
“Embora as crianças continuem precisando de histórias para ver mais sentido na vida”, afirma Gilka Girardello, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenadora do projeto Ateliê da Aurora.
De acordo com Gilka, se a família já não conta mais histórias, as crianças vão buscá-las em outros lugares: na televisão, na internet, nos livros, com os amigos ou na hora do recreio.
Para a professora, nenhum desses meios é essencialmente bom ou mau enquanto forma de transmissão de narrativas, mas nenhum também substitui o valor do encontro. “Muito menos do laço de afeto entre a mãe e as crianças. Entre o pai e o menino na beira da cama ou no sofá da sala, onde o adulto escolhe aquela história certinha para a criança que ama, do jeito que ela precisa”, destaca.
Contação de
histórias
Para Eliana Yunes, professora do Departamento de Letras da PUC-Rio, ao deixar de contar histórias, perde-se o calor da voz, o olho no olho, a troca de palavras depois da narração que ocorria entre os mais velhos e os mais novos, “como ilustra Lobato com sua Emília interagindo com Dona Benta”.
A intimidade e a cumplicidade que as histórias proporcionam a adultos e crianças são insubstituíveis e cada vez mais necessárias. Na avaliação do escritor Bartolomeu Campos de Queirós, quando o pai ou a mãe contam uma história para o filho, além de deixar vir à tona as fantasias, eles estão, na prática, dedicando um tempo precioso aos filhos.
“A presença afetiva e concreta de quem a criança ama, ao seu lado e só para ela, suplanta as demais funções da história. Quando a criança pede uma história, eu escuto ela dizer: fica comigo!


Histórias do coração
Uma fábula sobre a fábula
Lenda Oriental
por Malba Tahan
Quando Deus criou a mulher, criou também a fantasia. Um dia a Verdade resolveu visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.
Envolta em lindas formas num véu claro e transparente, foi ela bater à porta do rico palácio. Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas perguntou-lhe: - Quem és? - Sou a Verdade! - respondeu ela, com voz firme. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid.
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir: - Senhor, - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Raschid. - Como se chama? - Chama-se Verdade! - A Verdade! - exclamou o grão-vizir, subitamente assaltado de grande espanto. - A Verdade quer penetrar neste palácio! Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? Dize-lhe que não pode entrar de jeito nenhum.
Voltou o chefe dos guardas com o recado do grão-vizir e disse à Verdade: - Não podes entrar! Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou muito triste a Verdade, e afastou-se lentamente do grande palácio.
Mas... quando Deus criou a mulher, criou também a Obstinação. E a Verdade continuou a alimentar o propósito de visitar um grande palácio.
E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid... Cobriu as peregrinas formas de um couro grosseiro como os que usam os pastores, colocou um chapéu cobrindo quase todo o rosto e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio.
Ao ver aquela mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe: - Quem és? - Sou a Acusação! - respondeu ela, em tom severo. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid.
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu a entender-se como o grão-vizir. - Senhor - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano. Como se chama? - A Acusação! - A Acusação? - repetiu o grão-vizir, aterrorizado. - A Acusação quer entrar nesse palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que não, que não pode entrar!
Voltou o chefe dos guardas com a proibição do grão-vizir e disse à Verdade. - Não podes entrar! Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou ainda mais triste a Verdade e afastou-se vagarosamente do grande palácio do poderoso Harun Al-Raschid, cuja cúpula cintilava aos últimos clarões do sol poente.
Mas...quando Deus criou a mulher, criou também o Capricho. E a Verdade entrou-se do vivo desejo de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.
Vestiu-se com ríquissimos trajes, cobriu-se com jóias e adornos, perfumes, envolveu o rosto em um manto de seda e foi bater à porta do palácio mais uma vez. Ao ver aquela encantadora mulher, linda, o chefe dos guardas perguntou-lhe: - Quem és? - Sou a Fábula - respondeu ela, em tom meigo. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso sultão Harun Al-Raschid!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a falar com o grão-vizir: - Senhor, - disse, inclinando-se, humilde - uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita audiência de nosso amo e senhor, o sultão Harun AlRaschid. - Como se chama? - Chama-se Fábula! - A Fábula!!! - exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. - A Fábula quer entrar neste palácio! Que maravilha!!! Que entre!
Benvinda seja a encantadora Fábula: Que ela seja recepcionada com flores e perfumes! Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!
E abertas de par em par as portas do grande palácio de Bagdá, a formosa peregrina entrou.
E foi assim, vestida de Fábula, que a Verdade conseguiu entrar no palácio do sultão Harun Al-Raschid, o sultão mais poderoso de todos os tempos.






